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Recordo-me do primeiro ministro inglês Winston Churchill haver dito nas suas Memórias da Segunda Guerra Mundial que ele sempre se ateve à norma de jamais criticar qualquer ação de guerra ou de política depois de ocorrida, a menos que tenha expressado pública ou formalmente, em ocasião anterior, opinião ou advertência a respeito.
Em junho de 2005, tive o privilégio de ter um artigo meu publicado pelo jornal O Globo, no qual pude tratar de assuntos que na época me alarmavam. O primeiro deles tinha relação com o fato de um estado paralelo estar sendo criado ao lado do estado de direito. Lembro-me de haver dito: "Em muitas das grandes cidades brasileiras há sinais claros de que a sociedade está se organizando para fazer justiça com as próprias mãos. Bairros inteiros estão se articulando para que seus moradores sejam protegidos por justiceiros que matam à revelia do estado democrático e constitucional. A probabilidade de isso se tornar praxe e desembocar numa guerra civil não deve ser menosprezada. Até quando a sociedade suportará viver em cidades onde homens, sem a autorização dos poderes governamentais constituídos, sentenciam e matam sem a mínima possibilidade do suposto malfeitor se defender ou ser ressocializado?"
Uma segunda inquietação que pude manifestar ligava-se ao problema da corrupção endêmica e institucional da nossa nação aliada à impunidade: "Vivemos num país onde o crime compensa. Criminosos que matam impiedosamente, empresários que corrompem sem remorso e políticos que saqueiam o bem público sem o mínimo senso de vergonha sabem que não serão punidos. São recursos e mais recursos que seus hábeis advogados usam até o crime prescrever".
Uma terceira preocupação que de igual modo pude expressar era a ameaça que tudo isto representava para a democracia: "Percebe-se que muitos brasileiros estão expressando uma saudade da ditadura. É freqüente ouvir gente dizer que 'no período da ditadura não era assim'. A situação criada está levando o país a esse tipo de pensamento, um cenário perfeito para que surja um ditador propondo "botar ordem na casa". Collin Powell, ex-secretário de defesa norte-americano, disse recentemente que a democracia está seriamente ameaçada na América Latina devido aos altos índices de corrupção de suas instituições. Basta olharmos ao nosso redor para percebermos esse fato".
Reconheço que não precisei ser um gênio para detectar esses males. Igualmente admito que não fui o único a tratar desses problemas que hoje assumiram proporções que têm alarmado a tantos cidadãos brasileiros. É justamente isto que me angustia. Esses males são conhecidos de todos nós há anos. Sabemos que eles estão aí, representando desgraça e miséria para milhares.
A pergunta a que todos precisamos responder neste presente momento da nossa história é: Por que um dos povos mais calorosos do planeta permanece passivo ante todos os casos de desrespeito à vida que hoje ocorrem no Brasil? Por que a nação que mais abraça, beija e sorri não se levanta unida para protestar quando vê seus governantes cometerem crimes gravíssimos sem serem punidos, seus compatriotas assassinados aos milhares, suas matas consumidas, sua riqueza pessimamente distribuída e sua própria democracia ameaçada?
É certo que, entre as possíveis respostas para estas perguntas, quatro devem estar presentes:
1. A banalização da vida humana se tornou parte da cultura nacional. Não nos importamos mais.
2. A ausência de esperança de mudança nos deixa imobilizados. Não fazemos parte de uma raça que faz piada consigo mesma, admitindo que não vale nada e que o Brasil não tem jeito?
3. A falta de conhecimento do funcionamento do estado faz com que milhares de homens e mulheres de bom coração do nosso país não saibam como participar.
4. A desmobilização da sociedade faz com que não haja uma ampla conjugação de esforços por parte do povo.
O certo é que se os milhares de brasileiros que ainda amam a pátria e seu próximo não se mobilizarem para uma participação mais ativa na vida nacional, continuaremos a viver em meio à barbárie. Precisamos entender que o nível de comprometimento da maior parte dos que nos governam os impede de fazer o que eles sabem de antemão que deve ser feito. Fora a inacreditável mediocridade de tantos outros.
Que nos levantemos para fazer custar caro o sangue do brasileiro. Que nos organizemos para o protesto, oferta de ajuda e luta efetiva para a defesa da vida na nossa nação.
Antônio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz