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Por uma política de libertação

Fala-se muito sobre a chamada política de confronto do  governo do estado do Rio de Janeiro. Após um ano e meio de muito confronto,  marcado por baixas de civis inocentes e policiais, sem conseqüência  significativa alguma para a diminuição do número de homicídios, que deve  chegar em dezembro à marca de 21.000 em dois anos (se contarmos homicídio  doloso, encontro de cadáver, auto de resistência, latrocínio, pessoas que  foram assassinadas e que se encontram na categoria “desaparecidos” e policiais  mortos), a população começa a perceber que seu apoio inicial ao confronto  estava equivocado.

Um dos dramas da vida reside no fato de que em  muitas ocasiões há um lado dialético na verdade. Os dois lados de uma mesma  moeda que precisam ser levados em consideração. Uma sutileza que passa  despercebida pelos que se recusam a pensar de modo duplo. C. S. Lewis, famoso  autor das "Crônicas de Nárnia", costumava dizer que o erro vem aos pares.  Extremos opostos que se nos apresentam, forçando-nos a fazer uma escolha entre  ambos, quando na verdade a escolha de ambos os lados representará a opção pela  meia verdade. Como diz o famoso médico e teólogo galês, Martin Lloyd-Jones:  “Não há nada pior na busca pela verdade do que elevarmos à condição de verdade  completa um aspecto da verdade”. Em suma, pessoas podem estar numa discussão  apresentando pontos de vista diferentes sobre um determinado tema e ambas  estarem erradas.

Só um completo desconhecedor da natureza humana para  eliminar o confronto da política de segurança pública. Sendo o homem quem é o  estado tem que se fazer valer do monopólio do uso da força. Nossa tendência ao  mal tem que ser refreada ou pela força da persuasão racional ou pelo poder  coercitivo do estado. A idéia de eliminarmos a responsabilidade humana em  razão do histórico de miséria da vida do malfeitor, fará com que admitamos  como normais crimes que nenhuma miséria é capaz de justificar. Contudo, a meta  do combate à violência mediante o confronto pode ser alcançada de modos  diferentes, adaptando os meios aos fins estabelecidos e às circunstâncias  históricas.

A atual política de segurança do estado do Rio de Janeiro  está equivocada por vários motivos. Os números da violência estão aí para  mostrar que houve algum equivoco e que uma correção de rumo urgente precisa  ser feita. Senão vejamos.

Há um erro estratégico, incompreensível mesmo  para um leigo, de focar o combate ao tráfico e ao uso ilegal de armas na  comunidade pobre e não no entorno da cidade do Rio de Janeiro. Sabe-se que  essas drogas vêm pelas nossas estradas. Por que não há um investigação séria e  eficaz nas vias de acesso da cidade? Por que transferir o trabalho de  apreensão para as comunidades pobres apenas?

A idéia de que há um preço  de vidas a ser pago pela população a fim de que a violência seja reduzida é  moralmente incorreta e unilateral. Esse preço está sendo pago pelos pobres e  não pela classe média. Quem tem morrido em troca de tiros entre policiais e  traficantes é gente como a menina Fabiana da Mangueira e o menino Ramon de  Guadalupe, e não as crianças do Novo Leblon e do Mandala na Barra da Tijuca.  Não se combate a violência com o foco mais voltado para a morte do malfeitor  do que a proteção da vítima. É imoral trocar tiro com armamento que fura  parede de alvenaria sabendo que há criança dentro das casas que situam-se nas  regiões onde ocorrem os conflitos.

A invasão sem a intenção de ocupar  as áreas dominadas por narcotraficantes representa um desembarque da Normandia  pela metade. A um custo altíssimo de vidas entra-se numa região, mata-se  dezenas, traumatiza-se crianças, para no minuto seguinte voltar-se para  batalhões e delegacias, deixando a mesmíssima área devastada totalmente  desguarnecida. Um observador estrangeiro atento será levado a pensar que ou  enlouquecemos, ou perdemos o senso de valor da vida humana, ou somos um povo  atrasado sob todos os pontos de vista. Precisamos de uma política de  libertação. O estado precisa fazer com a população pobre o que o exército  colombiano fez com a ex-refém das Farc, Ingrid Betancourt: “Somos do exército  da Colômbia, a senhora está livre”. A falta de uma perspectiva de ocupação tem  levado os próprios integrantes das polícias à percepção frustrante de que  estão “enxugando gelo”. Olha, eu vi gente graúda da nossa segurança pública  expressando para mim essa semana essa terrível frustração.

A morte de  garotos envolvidos com o tráfico sem a presença definitiva do estado em áreas  dominadas pelo crime e a criação de condição para a chegada de políticas  públicas nas comunidades pobres, é outro aspecto desse desperdício de tempo,  recursos e vida. Sabe-se que para cada jovem morto há uma fila indiana de  reservistas do crime prontos para substituir os que pereceram. Rapazes com uma  demanda de auto-aceitação imensa. Sabedores do fato de que com um fuzil na mão  vão poder levar as meninas para a cama, ter o destino de vidas humanas em suas  mãos e comprar os bonés, tênis e roupas de grifes famosas. Tudo isso num  contexto de ausência completa de uma referência paterna, colapso da  experiência familiar, perda de valores, pobreza e evasão escolar. Sem o estado  presente e oferecendo condições dignas de vida para esses jovens, nós vamos  entrar para a história como cidadãos do estado que mais matou e menos realizou  para a promoção da vida e paz.

Como esperamos vencer essa crise  terrível, a maior que a minha geração enfrentou, com a condição de penúria em  que se encontra a nossa polícia? Nossa polícia trabalha em circunstância  desumana. Os policiais que tombaram na proteção dos moradores da Fonte da  Saudade ganhavam menos do que o custo fixo de cada filho das famílias para as  quais ofereciam segurança. Como pagar tão mal a homens que exercem função  social de tamanha importância e que correm risco de vida tamanhos no exercício  de sua profissão? Essa polícia carece de melhores salários. Soldo digno de  atrair os melhores jovens da nossa sociedade para o exercício do ofício de  policial. Essa polícia carece de ser melhor qualificada. Não se pode botar uma  arma na mão de uma homem, dizer que ele tem o direito de usá-la com base em um  pacto social que envolve o consentimento de milhões de seres humanos, e não  prepará-lo para tarefa que envolve vida e morte. Essa polícia carece de homens  que saibam comandar e inflamar seus comandados com altos ideais de serviço ao  próximo.

Tudo isso depende de investimento. Essa semana soube através  de gente importante da área da segurança pública do nosso estado que o Rio de  Janeiro precisa de mais 10.000 policiais para um policiamento ostensivo à  altura das demandas do estado. Sabe-se também, conforme acabei de mencionar,  que o salário do policial deve ser aumentado. Perguntei: “Mas, porque esse  investimento não é feito?” Em tom que me pareceu sincero e tomado de  frustração ouvi meu interlocutor dizer: “O estado do Rio de Janeiro não tem  dinheiro”. Pensei: “Meu Deus, essa gente tinha que vir a público e admitir  isso. A população tem o direito de saber se o estado tem condição ou não de  oferecer segurança para os seus cidadãos”. Porque das duas uma: ou vamos  embora daqui por causa do medo, ou nos mobilizamos para salvar o Rio de  Janeiro por causa do amor. Se é assim, o governo federal peca ao deixar o  segundo estado em arrecadação da federação sob um massacre sistemático de  vidas humanas, não oferecendo recursos para que os homens que estão à frente  da secretaria de segurança pública possam trabalhar.

Sou um leigo sobre  segurança pública. No início do ano passado eu não sabia a diferença entre  Polícia Civil e Militar. Não sabia que a primeira é responsável pelo serviço  investigativo (no Rio de Janeiro são elucidados menos de 2% da autoria de  homicídio doloso) e a segunda pelo policiamento ostensivo. Mas, venho de dias  nos quais entrevistei todo mundo. Falei com coronéis da PM, parente de vítima,  jornalistas, pesquisadores, presidente do ISP, secretário de segurança e o  próprio governador. Cheguei à essas conclusões. Gostaria de saber se estou  errado, se sou alarmista ou ingênuo. Aguardo convencimento racional do meu  possível erro de avaliação.

Nós só não podemos fazer o que é tão  próprio do brasileiro, deixar para a amanhã o que devemos fazer hoje. Não há  mais espaço para procrastinação. Não podemos decidir não decidir, permitir que  a maldade dos perversos seja reforçada pela fraqueza dos virtuosos,  tornando-nos assim cúmplices de um genocídio. A hora de agirmos com mais bom  senso é agora, especialmente quando tomamos conhecimento do fato de que pode  ser que um terceiro monstro esteja para nascer na nossa cidade, o pior de  todos. Permitimos o narcotráfico e a milícia, e, agora, surge no cenário o  envolvimento com o crime baseado em ideologia de libertação dos oprimidos dos  centros urbanos. Imagine marginais treinados para infernizar a cidade e  julgando com isso que estão salvando os pobres.

Ainda é tempo. Houve  povos que enfrentaram problemas mais graves dos que os nossos e os superaram.  Nossa geração pode vencer essa batalha da violência. Mas, para isso precisamos  trocar a idéia de confronto pela idéia de libertação. E isso mediante a união  de todos nós que amamos e nos orgulhamos do estado maravilhoso que Deus nos  deu para habitar em paz.

Antônio Carlos Costa

Publicado no blog  Repórter de Crime, Globonline.

 

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